quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O dia em que Jim Morrison voltou dos mortos.........

Ele empurrou a laje de seu túmulo e saiu. Riu das pixações e das garrafas de vinho deixadas ali em sua oferenda. Espanou um pouco da poeira da calça e botou os óculos escuros. Segundo seus cálculos, aquele ano era 1996, o mês julho e o dia 3. Exatos vinte e cinco anos atrás ele morria na banheira de um hotel, ali mesmo em Paris, ataque cardíaco, versão oficial. E agora ali está ele, o morto-vivo mais cultuado da história do rock, querendo saber como é que está a festa...
Jim Morrison está de volta, doa a quem doer. Ele e sua mórbida urgência de viver. Vinte e cinco anos após sua morte, pode-se dizer que está mais vivo que naqueles tempos. Seu rosto está em capas de revistas, matérias de jornais e especiais de tevê. Sua alma está em bandas covers, lançamentos de livros e cedês e vídeos e camisetas e teses e teses sobre sua figura. Ex-namoradas se manifestam, pretensos filhos aparecem. Vidas passadas suas são dissecadas. Correm lendas de que o homem não morreu e especula-se sobre seu paradeiro. Esse demônio não nos dá descanso!, protestam os que não o suportam. Porém, cá para nós, nós é que não lhe damos trégua. Por que diabos o mundo precisa tanto de Jim Morrison?
Um bluesman, místico, beberrão, mulherengo, poeta de sua própria indefinição. Não, que tal assim: um literato que levou para a mesma cama, ou o mesmo palco, a poesia e a música... Não, não, tentemos de novo. Um pessimista incurável, beatnik Rimbaudiano, armado de poesia e uísque até os dentes, gritando sua angústia de não encontrar a si mesmo num mundo onde já não lhe cabia. Não, também não... Apenas alguém que acordava de manhã e pegava logo uma cerveja pois o futuro é incerto e o fim estará sempre por perto, ponto.
É isso: quem escreve sobre Jim Morrison vê-se sempre enroscado nas teias de sua figura multidilacerada. Como enquadrar em conceitos um homem que fez de sua vida a personificação da frase de William Blake: "o caminho dos excessos conduz ao palácio da sabedoria"? Jim foi o excesso. Corpo e arte esticados ao máximo em auto-sacrifício. Como um Ayrton Senna, seu prazer foi arriscar o limite de si mesmo e não descansaria enquanto provasse ele mesmo o indizível gosto do risco supremo. Porque era isso sua vida: experimentar-se.
Jim Morrison foi o artista da estética do excesso (tentemos mais uma vez) que apresentou aos anos 60, inédita, sua receita mística de rock, poesia e teatro. Acrescente-se umas pitadas de sensualidade enroscando-se ao microfone, levando à loucura o mulheril. Misture com literatura e xamanismo. Agora um tempero de LSD. Polêmicas e processos judiciais. Doure ao fogo do psicodelismo. Pronto, agite ao som de L. A. Woman no volume máximo e pode tomar, gut, gut. Se você passar dos 27 anos certamente não seguiu a receita.
Seis anos tomando porres homéricos dessa mistura fizeram, em l971, esse herói-vilão de seu tempo encher o saco disso tudo, principalmente do culto à sua imagem e de tudo aquilo que o matava. Cansou de ser o anjo sexual do rock. Olhassem para o poeta e não para seu rostinho bonito. Então engordou, cresceu a barba e largou a banda. Jim cometeu o impensável sacrilégio de dar um chute na bunda do rock’n’roll. Deixou viúvos e principalmente víuvas se descabelando no desconsolo de achar que não, não, ele não tinha o direito. Pegou sua loira Pamela e foi refugiar a alma de literato em Paris. Disse que ia dar um tempo, fazer uns filmes (ainda tem essa: ele era formado em cinema pela UCLA) e compor uns blues.
Na-na-ni-na-não, não, mesmo - devem ter pensado então as deusas sorrateiras dos sortilégios. Seus admiradores estavam certos: ele não tinha o direito. Sua vida já não lhe pertencia. Seu exemplo de busca pessoal já era patrimônio do mundo. Então foram buscar-lhe naquela madrugada, a cool girl will kill you in a darked room. Janis e Hendrix já haviam tirado o time. Será que ele não percebia que a festa já terminara, que o século acabava prematuramente ali, batendo decepcionado a porta dos anos 60, e que depois restariam nós, remanescentes da festa, tentando inutilmente botar música na vitrola desse insosso final dos tempos? Talvez percebesse sim. Mas como ele mesmo dissera uma vez, ninguém sai daqui vivo.
Jim, como todos nós, buscava a si mesmo. E o fez, alucinadamente, pelo caminho dos excessos. O mesmo caminho que Sidarta Gautama, o Buda, precisou também trilhar, ao seu modo, antes de descobrir que há o caminho do meio, aquele que contém em si toda a sabedoria dos extremos - mas requer o equilíbrio máximo. O mundo precisa de Jim Morrison porque no fundo, sejamos honestos, precisa convencer-se de que tudo isso não é em vão, de que há algo que valha a pena tanto suor, tantas incertezas, tanta busca, deve haver. O mundo precisa de sujeitos como Jim Morrison porque precisa convencer-se de que somos todos imortais. Como ele.
É isso que eu perguntaria, se valeram a pena os descaminhos de sua sincera busca atormentada. Só ele poderia responder o que nossas teses e teses se esforçam em presumir. Mas que nada, ele deu uma olhada ao redor e voltou rápido para seu túmulo. Viu que a festa está mesmo uma droga.

Ricardo Kelmer
(publicado no jornal Diário do Nordeste em 03/07/96)

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